Minha paixão enterrei do jeito que a encontrei quando me chamaram ao necrotério para reconheceê-la. Estapeada, esmurrada, esfaqueada, com hematomas e um vestido branco com babados que costurei com minhas próprias mãos até surgirem calos.
O branco agora havia tomado um tom de rosa conseqüente das tentativas frustradas de tirar o sangue e purificar o pouco superficial que tinha a minha criança.
Enterrei-a toda feia e machucada mesmo ainda que se mantivesse criança de vestido novo na noite de Natal. Era ainda criança nova a minha paixão, como se encontra na infância o namoro de mãos dadas (somente) e a procura pela loja mais colorida de doces entre vitrines de roupas de médico.
E minha vó dizia que crianças viram anjos ao morrerem. Pena que agora sei que existe o limbo e que ela ainda vai sofrer com a própria confusão. Talvez se eu tratasse seus restos como fazem os egípcios sua alma seria livre. Ou quem sabe a minha. Mas não pude fazê-lo.
Tentei ordenar a minhas mãos que te trocassem os sapatinhos respingados de sangue. A meus olhos que buscassem o belo universal em você. Mas foi em vão. Tão em vão quanto minha tentativa de salvá-la do destino.
Em partes já nascera morta assim como em partes te enterrei viva. Deixei-a deplorável como estava porque limpar seu rosto seria como limpar as mãos do assassino e pentear seus cabelos seria afagar a cabeça da injustiça do mundo dos sentimentos.
Dando-lhe a beleza da vida eu mataria o crime que a destruiu, e matar tal crime seria destruir a parte de mim que sobrou e renegar todas as lágrimas.
Não minha criança. Não te deixo ir embora bela, mas espero que vá embora em paz. Com toda a paz que me tiraram no momento em que te fizeram nascer. Vá em paz porque a mim só restou o caos.